O que é o Bairro Alto? Quem é que lá vive e porque o faz? Será o Bairro Alto ainda um bairro no seu verdadeiro sentido? Quisemos reobservá-lo, mas desta vez deixámo-nos ser guiados por quem melhor o conhece: as pessoas que lá vivem e trabalham. Fomos apresentados e rapidamente construímos uma relação que veio a crescer e dar frutos: “Bairro Alto é” foi o resultado da nossa relação de dois curtos meses que, graças ao empenho de ambas as partes, se manteve para além do período da residência e ainda perdura. É um serviço que promove a identidade mais escondida e envergonhada, porém a mais autêntica e faz ver aos outros o que não sabiam sobre o Bairro Alto.
O que nós apreendemos e de mais importante retirámos é que é tudo e não é nada. O Bairro Alto é uma verdadeira antítese, poço de desilusão, desrespeito e pobreza e ao mesmo tempo recordações, movimento, juventude; é vida. Bairro Alto é o Sr. Carlos Encadernador e o Sr. Antunes do Cantinho da Paz, são mercearias, bares e restaurantes, ruas paralelas e perpendiculares, paredes sujas e copos no chão todas as manhãs. “É o sitio ideal para se apanhar uma bebedeira”, confessava-nos um morador de 32 anos, “mas não só: é um lugar cheio de história, cheio de gente de todo o lado, onde se pode aprender a passear”, ao que nos acrescentou outra das nossas anfitriãs; “Somos muitas vezes levados pelas ruas, impressionados pela sua idade mas recebidos pela sua alegria jovial. O Bairro Alto esconde memórias, sonhos festivos e, assim que entramos pelas suas ruas adentro, torna-se impossível esquecê-lo”. Lá compra-se o jornal de manhã e pão quente na padaria. Brinca-se nas ruas, uma vez que o trânsito automóvel é interdito a não-moradores. Vários negócios entram em falência exactamente pela mesma razão. Na realidade, este bairro dá-nos sinais de vida e de interdição quase em simultâneo.
Poucos são os que realmente conhecem este bairro e claro está que o motivo não é a falta de visitantes, isso o Bairro Alto tem até demais, caso contrário os moradores não os apelidariam de invasores. Lamentam a enchente nocturna e frisam o estado em que as ruas acordam de manhã. Falam das sucessivas lojas que abrem, vendem e saem, sem sequer se dignarem a dizer “Olá”, depois de se fazerem valer da sua reputação vanguardista. O bairro não é copos e lojas caras, isso é o bairro deles, dos tais invasores. “Recordo com saudade o bairro antes de se tornar tão cosmopolita porque acho que antes era muito mais puro”. O Bairro é um bairro, que por sinal se encontra extremamente bem situado no centro de Lisboa, mas que tem identidade própria, no fundo tem. É esta que os moradores se propõem revelar.
Os pequenos negócios tradicionais são importantes pelas suas histórias, pelos seus vendedores, pessoas que viram as gerações do bairro crescer e dar vida a novas gerações. As colectividades que são a essência da comunidade, espaços de encontro, partilha, tradição e divertimento. Todos estes locais que existem no Bairro Alto são conhecidos pela população que o habita, mas não por toda a população que o frequenta. Dar a conhecer esta rede com camadas físicas, históricas e humanas é dar a conhecer a identidade do Bairro. Os moradores querem ser ouvidos e, ao partilharem as suas opiniões e histórias, reforçam os seus laços de comunidade.
“Bairro Alto é” é um serviço projectado com e para a comunidade deste local. Identificámos o que é o bairro, os restaurantes, mercearias, livrarias, colectividades, lojas de roupa e calçado, lojas de ferragens e drogarias, talhos, papelarias e retrosarias. Colocámos-lhes uma pedra à porta com a inscrição “Bairro Alto é” para que qualquer pessoa que visite o bairro facilmente reconheça que existe uma relação entre estes vários pontos. Identificámos também quem é o Bairro Alto: o Nelson, que faz distribuição nos restaurantes e bares, a D. Gloria da mercearia nº10 da R. do Diário de Noticias, a Carla Silva que vive no nº18 da Rua da Rosa e quisemos dar-lhes voz, mas uma voz autêntica, aquela que lhes pertence mas que, por timidez ou até descrença, fazia questão de passar despercebida.
É no ultimo sábado de cada mês que este bairro é celebrado. Segundo um tema específico o qual varia para que de cada vez seja apresentada uma nova perspectiva desta identidade, os visitantes são guiados pelas suas ruas devidamente munidos de um saco, folhetos, cartões, conduzidos por pessoas da comunidade que darão a conhecer o que é a vivência, a história e as relações que caracterizam o local e todos serão benvindos.
Hoje a definição de designer, que nunca foi explícita, complicou-se. As áreas em que estes intervêm têm vindo a expandir-se. De coisas, espaços e mensagens passou-se a projectar também sistemas e serviços. Não é que estas estas áreas sejam novas, não são, apenas não se lhes dava o nome de Design de Serviços. A questão que se coloca é o porquê da terminologia “design”?
Para tal existe uma série de respostas possíveis que servem perfeitamente até a leigos na matéria. A mais usual refere-se às tendências de mercado que apontam para uma evolução do produto para sistemas culminando em serviços: a iTunes Store é um bom exemplo disso mesmo, apresentando-se como o maior serviço de revenda de música legal e atribuindo aos produtos, ou dispositivos, uma importância secundária. Deste ponto de vista, aplicar a terminologia “design” à concepção e criação de serviços poderá ser meramente uma resposta a esta economia, como que se de uma estratégia de sobrevivência se tratasse, mutando-se e procurando atingir novos desafios, fazendo-se valer do design thinking como uma mais valia para atingir inovação em questões cujos meios de resolução se tornaram obsoletos.
A especialização das disciplinas aliada a um individualismo característico de uma sociedade neo-liberal resulta num beco sem saída, se olharmos para este novos paradigmas que nos desafiam. É aqui que entra outra novidade que também já se aplica, falamos de pensamento interdisciplinar e uma grande oportunidade para os designers, visto que o Design é uma área de estudo baseada na colaboração e com uma longa experiência em mediação. É também uma área que cruza uma grande variedade de campos de conhecimento e disciplinas, citando Alastair Fuad-Luke, o que “confere ao design um alcance único entre as disciplinas criativas, enquanto simultaneamente adiciona mais complexidade e indefine o espaço de discurso.” Segundo este autor, o design abarca mitos e significados, filosofia, ciência, educação, antropologia, sociologia, cultura material, estudos media e culturais, economia, ciências políticas e ecologia, e é esta habilidade para operar entre “coisas” e “sistemas” que torna o design particularmente adequado para lidar com as questões económicas, sociais e ambientais contemporâneas.
O design de serviços segue a tradição do design de produto, permitindo a transferência de métodos analíticos e criativos previamente comprovados para o mundo dos serviços. “Visualisam, formalizam e coreografam soluções”, observam e interpretam padrões comportamentais para a criação de possíveis serviços. O seu processo aplica aproximações “explorativas, generativas e de avaliação” essenciais ao processo de criação. É em parte este aproveitamento e utilização de metodologias que dá o nome ao Design de Serviços.
“Bairro Alto é” é um serviço em que os mediadores e criadores são designers e por isso segue a linha de pensamento em cima referida. Projectámos com e para a população local, o que nos possibilitou perceber algumas das suas reais necessidades. Pela sua morfologia, este é um projecto de design de serviços que aborda a questão social da tríade da sustentabilidade.
Esta abordagem ao design é relativamente recente, quer em Portugal, quer no mundo, e por isso todas as hipóteses que temos de casos de estudo são exploradas até à exaustão. Nisso, o “Bairro Alto é”, foi bastante importante no durante o nosso percurso, porque para além de toda a experiência da criação, tivemos a hipótese rara de acompanhar a implementação, de fazer correcções e adaptações, de teorizar sobre o que foi feito e o mais importante, de o libertar, torná-lo sustentável sem depender da nossa contribuição para continuar a existir. Afinal de contas o projecto era para eles, e deles, da comunidade do Bairro Alto.
Dado o caracter experimentalista deste tipo de projectos, pertendemos pratilhar convosco aquilo que foi o faseamento metodologico em que nos baseamos durante o desenvolvimento do serviço:
FASE 1 – Trabalho de campo / Iniciação do envolvimento colectivo – Identificação dos actores chave, promoção de um evento inicial
Agendar Calendarização; Quem são os principais dinamizadores dentro do público jovem? Como os podemos conhecer? Quem são as “pessoas-chave” no Bairro Alto e que podem servir como divulgadores do projecto? Marcar encontros; Quais são os diferentes grupos participantes nas Marchas Populares? Marcar visita. Existe mais algum género de movimento ou acções que dinamizam a zona? Qual?; Que instituições de apoio à população existem?; Como nos podemos integrar junto da população jovem? O que os motiva?; Quais são os canais de divulgação / publicidade do Bairro?; Quem é o representante da equipa do Projecto +Skillz com quem vamos colaborar?
Ferramentas de trabalho: Sala de trabalho (+Skillz); Computador (+Skillz / portáteis); Camera de filmar (+Skillz); Camera fotográfica (individuais /+Skillz / máquinas descartáveis); Consumivéis: Canetas de várias cores, papel de cenário ou folhas A2, post-its.
Planeamento de um evento participatório inicial: “Bairro Alto é…” Exposição colectiva
A comunidade do Bairro Alto é convidada a expressar a sua opinião, revelar memórias e experiências relativas à vivência neste bairro. O conjunto das suas escolhas resultará num retrato visual, numa identidade colectiva. Muito mais do que uma representação artística para um espectador, esta exposição tem como fundamento a síntese de uma expressão colectiva dos habitantes do Bairro Alto.
FASE 2 – Análise de dados – Percepção das problemáticas do bairro / Consenso colectivo do Design Brief
Após o envolvimento da população do Bairro Alto durante todo o trabalho de campo, identificámos vários principais problemas, mas houve um que nos saltou mais à vista e que percebemos como boa hipótese de projecto, tendo em conta limitações que nos eram impostas à partida. Aquela que foi o nossa proposta inicial de interacção com a população, veio a revelar-se também uma das principais problemáticas identificádas por eles: a identidade. Na verdade creêm que ninguém sabe o que é o Bairro Alto, mas também que ninguém se interessa por isso porque não tem valor. Quando lhes perguntámos porque não deixam aquele bairro, a resposta foi quase unânime: “porque é a minha vida.” Foi daqui que surgiu a nossa questão projectual, como podemos ouvir a identidade do Bairro Alto?
FASE 3 – Criatividade – Idealização e brainstorming, conceptualização, propostas, selecção de propostas, especificação e detalhe da proposta seleccionada;
FASE 4 – Implementação / Utilização;
FASE 5 - Experimentação / Feedback;
FASE 6 – Verificação / Modificação / Adaptação.
/ Bairro Alto é ; Anjoom Satar, Ana Relvão, Ricardo Roque, Susana António em colaboração com o Projecto +Skillz; desenvolvido no âmbito do Projecto Eva; Clube Português de Artes e Ideias em parceria com Programa Escolhas; www.bairroaltoe.com; Julho e Agosto 2010